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23 de maio de 2018

“A mudança climática é um multiplicador de riscos”


Encontro da plataforma Diálogos Futuro Sustentável realizado no Rio de Janeiro aborda relação entre clima e segurança por especialistas. Veja!

Por Felipe Lobo

Os efeitos das mudanças climáticas e eventos extremos para a segurança dos países foi tema e ponto de partida do Encontro Internacional sobre Clima e Segurança, realizado na última sexta-feira, dia 18,  pelo Instituto Clima e Sociedade e pela Embaixada da Alemanha Brasília, com o apoio do Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro e do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio. O terceiro evento organizado pela plataforma Diálogos Futuro Sustentável demonstrou a pluralidade de definições da palavra segurança, com especial atenção para a necessidade de aprimorar a governança e a interconexão entre os diferentes atores sociais.

O embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, fez a abertura antes do primeiro painel e foi direto ao ponto crucial das discussões que estavam por vir: “Uma política de segurança preventiva necessita atuar amplamente contra todos os riscos e potenciais conflitos que possam comprometer nossa segurança. A mudança climática é um multiplicador de riscos, como escassez de água e alimentos, eventos climáticos extremos, migração. O objetivo do governo alemão é compreender esses riscos e, se não for possível eliminá-los, ao menos mitiga-los”, afirmou.

O caminho rumo à segurança, de acordo com os palestrantes, une esforços de atores com diferentes perspectivas sobre o mesmo assunto. A reflexão tangencia diretamente a noção de que falar sobre clima é, antes de tudo, tratar de modelo de desenvolvimento – o que engloba preços de commodities, preparação da defesa civil para lidar com desastres naturais, ciclos migratórios se intensificando e balança comercial.

“A ação humana está acelerando de forma intensa e rápida as tendências de mudanças climáticas, e o que está em jogo é a nossa sobrevivência, não do planeta. Estamos entrando num avião com imensas chances de cair. É sob a ótica de disputa de poder por conta das consequências das alterações no clima, nas novas rotas de navegação em função do degelo no Ártico ou nas guerras em busca de água que estamos vivendo. No iCS, temos a premissa de que é melhor prevenir do que remediar. Por isso, precisamos de todos juntos”, encorajou Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade.

Professora do Instituto de Relações Internacionais (IRI), da PUC-Rio – parceiro do evento -, Monica Herz reforçou o caráter controverso do conceito de segurança. Para ela, o essencial, hoje, é debater em que medida as questões climáticas nos levam a situações de conflito, ou seja, aquelas em que as normas pacíficas e o debate democrático não conseguem resolver.

Painel I: cenário internacional

Pela manhã, as experiências internacionais em clima e segurança tiveram destaque nas apresentações de Alexander Carius (fundador e diretor Geral do adelphi, na Alemanha), John Coger (diretor do Centro Clima e Segurança, nos EUA), Marianela Curi (diretora executiva, da Fundação Futuro Latinoamericano, no Equador) e Yves Sassenrath (representante adjunto do Fundo de População das Nações Unidas Brasil, UNFPA Brasil).

Carius iniciou o primeiro painel salientando que, dos cinco riscos planetários eleitos pelo Global Risks Landscape 2018, quatro têm relação direta com o clima. Segundo ele, a luta por recursos naturais está numa reta crescente. Os casos da Síria, em que uma terrível seca de 2006 a 2011 levou famílias à fome e a economia abaixo por conta do impacto na agricultura, e da crise ambiental do Lago Chade, na África, que pode secar em 20 anos e já afetou mais de 7 milhões de pessoas, foram outros exemplos reais apontados para ilustrar a relação intrínseca entre mudanças climáticas e segurança.

A região amazônica, aliás, foi outro ponto fundamental a ser lembrado pelos palestrantes. Marianela Curi defendeu a importância da floresta para o mundo, com suas capacidades de garantir as seguranças hídrica, energética, alimentar e de saúde. “São todas pautas interdependentes. Há ameaças diretas na Amazônia para a segurança, que não pode ser entendida apenas como defesa de fronteiras e violência. O desmatamento, a perda de serviços ecossistêmicos, desigualdade e conflito e contaminação são alguns dos exemplos”.

Os Estados Unidos, um dos locais onde há mais céticos climáticos (incluindo o presidente Donald Trump), também sofre com os efeitos das mudanças climáticas. Coger contou que a maior base naval do país está situada em Virginia, acessada pelos oficiais da Marinha por meio de uma estrada que inunda com frequência – a previsão é de que, em 20 anos, a inundação acontecerá por duas horas, todos os dias. Refletir sobre as infraestruturas e como adaptá-las, portanto, é ponto crucial.

Painel II: cenário nacional

No segundo momento do evento, a percepção sobre o tema de segurança para o Itamaraty, na voz de Patrícia Soares Leite, subchefe da Divisão da Mudança do Clima (DCLIMA) do Ministério das Relações Exteriores, difere dos demais palestrantes. “Pode ser que clima gere conflito, mas as ferramentas para lidar com o problema inicial são buscar a integralidade social, econômica, reduzir as emissões e melhorar a capacidade de adaptação”. Clima, avalia, não deve ser tratado no Conselho de Segurança da ONU, tese defendida pelo embaixador da Alemanha, Georg Witschel.

A infraestrutura, diga-se, é elemento central do estudo apresentado por Sérgio Margulis, pesquisador sênior do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS). Para ele, que analisa as infraestruturas mais críticas do país sob o ponto de vista de sua importância econômica e vulnerabilidade climática, há ainda uma visão de que prevenção é muitas vezes custosa e com resultados de longo prazo, o que gera risco para o negócio.

Não é possível falar sobre segurança e clima, porém, sem levar em consideração os direitos humanos – tanto de imigrantes, por exemplo, quanto das pessoas que lutam em favor dos direitos e da preservação. O Brasil, por dois anos consecutivos (e rumo ao terceiro) foi o país que mais assassinou defensores de direitos humanos. Por esse motivo, Juana Kweitel, diretora executiva da Conectas Direitos Humanos, aproveitou o microfone para pedir que o discurso dos direitos seja absorvido e transmitido pela comunidade climática.

Mas, e afinal, se estamos falando de segurança, onde entram os órgãos de defesa? A fala de encerramento do Encontro foi reservada ao contra-almirante Carlos Eduardo Horta Arentz, da Subchefia de Política e Estratégia. Caso necessário, os militares são instados a colaborar com outras agências no apoio a entidades civis, assistência humanitária, auxílio em desastres, entre outros, o que envolve aperfeiçoamento da capacitação. Mas apenas quando solicitados, reforça.

Quer rever uma palestra? Clique aqui e acesse a gravação ao vivo do evento! O próximo encontro do Diálogos Futuro Sustentável já tem data marcada. Será no dia 19 de junho sobre precificação de carbono, no Instituto Tomie Ohtake (SP). Não perca!

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