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16 de setembro de 2016

Como Anda faz retrato das organizações de mobilidade a pé


Ainda um tema relativamente jovem, a mobilidade a pé no Brasil ganhou um aliado na pesquisa Como Anda. Feita em parceria entre Corrida Amiga e Cidade Ativa, com apoio do iCS, o levantamento mapeou mais de 120 organizações de todo o país. A pesquisa identifica a forma de atuação, financiamento e dificuldades das organizações, como a falta de verba e formalização. Além disso, o site conta com uma área de publicações temáticas e uma compilação inédita da legislação de mobilidade a pé, nos níveis federal, estadual e municipal (em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e Recife). Rafaella Basile, da Cidade Ativa, e Andrew Oliveira, do Corrida Amiga, explicam mais sobre o assunto nessa entrevista para o iCS.

De que forma o Como Anda ajuda a discussão da mobilidade a pé? Quais são os resultados visíveis?

Andrew: Teve um papel de fortalecer a identidade da atuação em mobilidade a pé. Muitas pessoas não se enxergavam atuantes nesse segmento e a partir de então elas se veem mais próximas de outras organizações e do tema de mobilidade a pé. Não temos dúvida que isso estimula que a atuação só cresça.

Rafaella: Já vimos sim resultados. Por exemplo, há uma organização chamada A Pezito em Porto Alegre que promove o caminhar das crianças de casa até a escola. Aqui em São Paulo, o Carona a Pé faz a mesma coisa, o Exploradores Urbanos leva as crianças para caminhar na cidade. Um não conhecia o outro e eles já nos avisaram que entraram em contato, trocaram figurinhas. O Como Anda já permitiu esse conhecimento de organizações de diferentes cantos do Brasil para trocarem informações. Algo que percebemos ao longo do percurso que seria necessário começar a deixar o mais público possível essas informações, para as pessoas entenderem que mobilidade a pé pode ser muitas coisas, das mais diferentes maneiras.

Quais foram os desafios que vocês encontraram na execução da pesquisa?

A: Um dos principais desafios foi chegar a outros estados, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Além de encontrar organizações antigas que incentivassem a mobilidade a pé, que não estão nas redes sociais. Tivemos ainda que enfrentar certas limitações do pessoal para responder ao questionário, por ser relativamente denso.

R: Entre janeiro e abril fizemos um pré-mapeamento de quais seriam as organizações que promovem direta e indiretamente a mobilidade a pé, buscando nas redes sociais, nas nossas listas e contatos de parceiros. Como estamos baseados em São Paulo, muitos dos nossos contatos estão concentrados aqui. Nosso receio era que a pesquisa tivesse esse viés. Então tivemos esse esforço de contatar parceiros locais para identificar instituições e inciativas localmente, para que pudéssemos ter um número mais fiel de organizações mapeadas. Uma das estratégias para chegar nessas organizações foi começar a divulgar o trabalho nas redes sociais. Fora isso, fizemos posts voltados para outros estados e começamos a patrocinar esses posts no Facebook.

A: Uma ajuda fundamental foi dos nossos colaboradores de divulgar a pesquisa e trazer uma avaliação crítica. Sempre estivemos abertos a construir essa pesquisa da forma mais colaborativa possível. Como Anda é um esforço das organizações Cidade Ativa e Corrida Amiga, mas também é resultado da escuta dos agentes de mobilidade a pé.

R: Logo no início, antes de decidirmos até o nome da pesquisa, fizemos um workshop com parceiros, vários do Rio de Janeiro. Discutimos qual era a visão deles para o cenário da mobilidade a pé e isso deu pistas do que deveria ser perguntado no questionário e fizemos um pré-teste do questionário com esses parceiros.

O perfil das organizações é estar presente nas redes sociais?

R: A maioria das organizações é antenada, tem site, Facebook. Faz parte do nosso recorte metodológico. Não pretendíamos entrar em campo [apenas] para encontrar essas organizações. Mas também fizemos o esforço de entrar em contato com organizações antigas, que não são tão conectadas mas que sabemos que existem. São organizações importantes, como a Associação de Pedestres de São Paulo, que tem 40 anos. Ligamos diversas vezes para que conseguíssemos mapeá-los. Foi um trabalho de detetive.

A maioria das instituições fica em São Paulo. Qual a razão do protagonismo dessa região?

R: Do jeito que a pesquisa foi montada, não conseguimos ter certeza se isso é um viés do nosso recorte, ou se São Paulo tem protagonismo na mobilidade a pé. Mas tem algumas hipóteses que levantamos sobre esse protagonismo. A gestão Haddad, com as mudanças que foram propostas, trouxe mobilização em torno do tema da mobilidade em geral. Em São Paulo há muito o movimento cicloativista e a mobilidade a pé acaba tendo uma relação próxima com o cicloativismo.

A: Tem a questão do Plano Municipal de Mobilidade. O Plano Diretor de 2014 traz um conceito de rede de mobilidade a pé, o Plano Municipal da Mobilidade de São Paulo, teve toda uma movimentação das organizações aqui na cidade. Existe um cenário fértil em torno das questões da mobilidade, da reocupação do espaço público, que são frutíferos à atuação em mobilidade a pé.

R: Quando a mobilidade a pé é discutida é porque outros campos já atingiram um grau de maturidade que permite que avancemos. Ela é tão ampla e tão complexa que é mais fácil falar de transporte público ou bicicleta, mais palpáveis, mais factíveis. São Paulo, por já ter avançado na questão do transporte público, e mais recentemente na questão da bicicleta, chega a um momento que começa a discutir a mobilidade a pé. O movimento cicloativista tem muitas vitórias e chegou a hora de buscarmos isso na mobilidade a pé.

Quais outras cidades se destacam?

R: Quatro capitais são relevantes. Recife tem um movimento cicloativista importante e tem várias organizações mapeadas. Brasília, Curitiba e Belo Horizonte também tem muitas organizações. O Rio de Janeiro acabou sendo uma decepção. Achávamos que teria um perfil mais parecido com o de São Paulo, mas não é tão mobilizado assim.

Quais iniciativas se destacam em São Paulo que poderiam ser aplicadas a outras cidades?

R: Em São Paulo há muitas organizações trabalhando com política pública e arquitetura e urbanismo. São Paulo avançou muito nos últimos anos com a Associação de Mobilidade a Pé, a Cidade a Pé. Em outras cidades há a vontade de ter associações que falem pelos pedestres. Outras capitais ainda não têm iniciativas semelhantes.

A: Várias dessas organizações se inspiraram na atuação do movimento cicloativista. O caminho trilhado por esses cicloativistas, com conquistas já visíveis, inspiram outras pessoas a lutarem pelo direito do pedestre e por uma cidade mais caminhável. Em Recife, tivemos a oportunidade de conhecer casos muito significativos de organizações que estão engajadas na ciclomobilidade mas que são sensíveis à mobilidade a pé, pela proximidade óbvia e necessária.

R: No México, um país com discussão de mobilidade bem forte, foi o que aconteceu, o movimento da mobilidade a pé veio do movimento cicloativista. E a pesquisa já dá alguns sinais de que a mobilidade ativa deve estar unida e deve ser discutida conjuntamente. São coisas muito similares, tem muitos pontos em comum.

A maioria das instituições é mais recente. Isso é um reflexo da importância que o tema tem ganhado?

R: A partir do ano de 2013, há um boom de organizações que trata do tema direta ou indiretamente. Por que o movimento da mobilidade a pé é tão jovem se comparado, por exemplo, ao movimento cicloativista, que tem mais de uma década? Em 2012 temos o Plano Nacional de Mobilidade Urbana que trata da questão da bicicleta e da mobilidade a pé. Em 2013, temos as Jornadas de Junho, influenciou muito as discussões do ir e vir nas cidades. Fora isso, com a gestão Haddad, há o surgimento de muitas ciclovias e de infraestruturas básicas na cidade [de São Paulo]. Um dado relevante é que as organizações focadas em mobilidade a pé são praticamente todas [criadas] a partir de 2013. Requer um amadurecimento das discussões para falarmos especificamente dentro da estrutura para o pedestre.

Dentro da linha do tempo, quais os eventos mais significativos?

A: O Plano Nacional de Mobilidade Urbana com certeza, ele coloca nessa pirâmide da mobilidade a mobilidade a pé como prioritária, junto com a mobilidade de bicicleta. E evidentemente a questão do transporte público é destacada, exigindo que os municípios com mais de 25 mil habitantes elaborem seus planos municipais à luz dessas orientações. Outro fato importante e mais recente ainda é a Lei Brasileira de Inclusão, que coloca de maneira central o tema da acessibilidade nas cidades. No ano passado, é válido destacar o Seminário Internacional Cidades a Pé, que foi um evento de magnitude muito expressiva, com referências nacionais e internacionais para discutir e colocar em pauta a temática. Além disso, nossas cidades vêm adotando políticas de promoção de mobilidade a pé ou de ativação de espaços públicos. Outro exemplo importante também no nível municipal de infraestrutura são as faixas em X, em São Paulo e Fortaleza. De fato, existe uma concentração recente, que está relacionada com a maturidade desse debate. Esperamos que apareçam ainda mais marcos em 2016 e 2017, e que a atuação das organizações cresça. O Como Anda com certeza vai favorecer esse cenário.

Quais os planos para o futuro do Como Anda?

R: Temos certeza que o mapeamento tem que continuar. Sabemos que ainda há cantinhos do Brasil em que não chegamos. Nosso site todo foi feito para ser atualizado automaticamente. Isso faz com que possamos ter uma vida longa sem trabalho manual. Nesse momento, estamos organizando um workshop para discutir resultados e fazer um plano de ação para mobilidade a pé, agora que já temos dados sobre esse cenário. Com isso, esperamos descobrir a vocação do Como Anda para os próximos anos. Acreditamos que o Como Anda pode avançar muito mais, seja levando a discussão para outros lugares do Brasil que ainda não é fortalecida, seja trocando experiência com movimentos internacionais bem sucedidos.

A: Demandas não faltam.

A pesquisa Como Anda foi tema de matéria publicada na Folha de São Paulo, veja aqui.

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