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09 de agosto de 2017

Entrevista: Ana Yang, Presidente do Conselho do iCS


Ana Yang, Acting Director de Mudanças Climáticas do CIFF, é a atual presidente do Conselho do iCS. Nesse bate-papo, ela conta sobre o processo de criação do Clima e Sociedade, a importância de que ele fosse um instituto 100% nacional e analisa o papel da filantropia no mundo. Além disso, Ana toca em um assunto que diz muito respeito ao Brasil: a necessidade de criar uma linha de argumentação sobre clima sem falar de clima, e sim de desenvolvimento econômico e social. Confira a entrevista na íntegra.

ana yang

iCS: Ana, obrigado pelo seu tempo. Como você analisa a questão climática no Brasil, mesmo nesse cenário de crise política e econômica?

Ana Yang: Fiquei aqui pensando se eu deveria ser otimista ou pessimista em relação ao que está acontecendo no Brasil. Eu não sei se é possível termos simultaneamente uma visão positiva e uma expectativa negativa. Mas vou explicar.

Se olharmos a trajetória de performance do Brasil na questão climática, e o papel que o país tem assumido nas negociações internacionais desde Copenhague, a visão é bastante positiva, tanto do ponto de vista de como o Brasil atua internacionalmente quanto do seu papel de liderança. O Brasil sempre demonstrou papel de protagonismo e por isso tenho a expectativa de que, com esse histórico, ainda continuemos assim.

Dito isso, na atual conjuntura – olhando mais especificamente para os últimos 12 meses, desde o segundo mandato da Dilma Rousseff e seu impeachment -, sinto que as coisas degringolaram um pouco. Principalmente agora, com Temer refém da bancada ruralista para se manter no poder, houve o relaxamento de uma série de leis ambientais, o que pode gerar impacto significativo nessa trajetória.

Tento manter uma visão otimista, de que mesmo com a crise, e o Brasil sempre passou por várias crises, o papel de protagonismo foi resguardado. Mas ao olhar para frente, ao menos nos próximos 12 meses, ainda mais com o aumento da taxa de desmatamento (que está ligado a uma sensação de impunidade), não tenho uma perspectiva positiva.

iCS: E, ao considerar a NDC brasileira, como fica a sua visão?

AY: Claro que o movimento ambientalista diz que poderíamos ter sido mais ambiciosos; de toda forma, a NDC brasileira, comparativamente falando, é decente. Historicamente o Brasil tem um processo de consulta, um formato que prevê o diálogo, principalmente graças ao Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Não sei se esse diálogo acontece propriamente, mas já é melhor do que outros países. Além do Fórum existem comitês interministeriais para olhar a questão do clima. Enfim, o Brasil tem um bom arcabouço, porém mal implementado.

iCS: Como você imagina que a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris pode afetá-lo? Nações como o Brasil, grandes emissores de gases de efeito estufa, podem fazer algum novo movimento para mostrar que o planeta permanece unido no enfrentamento às mudanças do clima?

AY: O anúncio da intenção de saída dos Estados Unidos (porque demora alguns anos para que eles, de fato, saiam do Acordo) é um sinal. Mas o que precisamos lembrar, e que é uma das fortalezas do Acordo de Paris, é que o seu sucesso não depende apenas dos governos nacionais, mas também de atores subnacionais, como as cidades, que podem fazer uma série de coisas, e empresas, por exemplo.

Portanto, o anúncio da saída dos EUA é mais uma percepção do que um impacto real. Não sabemos ainda. Desde que o Trump anunciou a intenção de sair, vimos outros atores dando um passo à frente dizendo que continuam com o comprometimento, que vão entregar os compromissos firmados em suas NDCs. Vendo por este lado, acho que o anúncio norte-americano não é necessariamente negativo.

Mas a grande pergunta no ar é sobre 2020. Os ciclos do Acordo são revistos a cada cinco anos. Será que em 2020 os países sentarão à mesa com um step up, de contribuições mais ambiciosas, ou mostrando que não houve avanços? Por isso só saberemos realmente se o Acordo está funcionando ou não em 2020, e nesse momento não poderemos falhar. E, já ano que vem, em 2018, os países começam a mostrar o que estão fazendo, algo como um midterm review.

iCS: Ana, falando especificamente do iCS agora, somos uma das poucas instituições de filantropia no Brasil com foco na questão climática. Como você analisa o papel do Instituto e sua relevância no cenário nacional?

AY: O CIFF foi uma das fundadoras do iCS. Ajudamos a criá-lo justamente porque não havia uma instituição no Brasil que olhasse a questão da mitigação e do clima no país. Nas discussões iniciais éramos dois brasileiros, eu e o Leonardo (Lacerda, Diretor do Programa de Meio Ambiente da OAK Foundation, e membro do conselho do iCS), e sempre insistimos que o Clima e Sociedade deveria ser uma instituição 100% nacional. Isso porque a questão de clima passa pelo debate de desenvolvimento econômico e social. Há uma percepção, e não só no Brasil (na China e na Índia também, por exemplo), sobre a legitimidade que uma instituição internacional tem para questionar o processo de desenvolvimento de um país. Então, quando pensamos o iCS, sabíamos que ele precisaria ter um perfil 100% nacional e focado na questão de clima com uma combinação de capacidade técnica, baseada em fatos e evidências, mas também com uma excelente leitura política.

Na minha opinião, a questão de clima no Brasil não é clima, e sim desenvolvimento. Qual trajetória de desenvolvimento o país vai escolher? O debate não deve ser se o Brasil será ou não o maior produtor de alimentos, mas sim como faremos isso reduzindo desmatamento, utilizando uma agricultura de baixo carbono, etc.

iCS: Por que, quando tratamos de filantropia, o tema do clima tem um papel de relevância na Europa e nos Estados (incluindo filantropia do tipo familiar), mas ainda é incipiente em nosso país? Quais, a seu ver, são as alternativas factíveis para reverter esse cenários?

AY: Minha teoria é de que isso acontece porque nos EUA e na Europa há um arcabouço legal para indivíduos muito ricos, o que estimula a criação de instituições filantrópicas. Por isso há entidades com mais de 100 anos, como a Fundação Ford, por exemplo. No Brasil, não há incentivo para investir dinheiro em filantropia.

O segundo ponto é: existe uma teoria de estágios pelos quais passam as instituições filantrópicas. O estágio 1, no qual a maioria das instituições brasileiras está, é a filantropia do entorno – por exemplo, no estado onde a empresa está ou o dono do dinheiro fica. O estágio 2, em que algumas instituições nacionais começam a entrar, amplia o horizonte para questões mais sistêmicas, com temas interligados. Já o estágio 3 é a profissionalização, quando há um board estruturado, um CEO externo contratado, entre outros.

O iCS praticamente já nasceu no estágio 3, com um board profissional, diretor executivo profissional, mas ainda necessita de outros financiadores. Ele é um caso único. A filantropia no Brasil ainda está em evolução, e em países em desenvolvimento como o nosso há uma série de outros problemas a resolver, como educação, então é natural que o foco da filantropia seja em outras questões.

iCS: Como as instituições filantrópicas se unem, atualmente, para trabalhar em conjunto nos temas, por exemplo, de política e economia climática? Como elas colaboram entre si internacionalmente e como esse processo pode começar a acontecer com mais recorrência no Brasil?

AY: Acho que podem colaborar em dois aspectos. No primeiro, caso elas tenham uma agenda comum. Por exemplo, a agenda de eficiência energética do iCS é sinérgica a de uma organização irmã, muito maior e mais antiga, que é a European Climate Foundation (ECF). Nesse caso, eles podem ter uma colaboração programática e o iCS pode aprender com o que o ECF está fazendo na área de energia.

A segundo maneira possível de colaboração é por meio de táticas, como de campanhas, por exemplo. É um modelo transferível para diversos temas, como questão urbana, desmatamento, entre outros.

E acho que o iCS pode ensinar como conectar a narrativa de clima com desenvolvimento. A grande pergunta que temos hoje é: como falar de clima sem falar de clima? Para mim, o Brasil tem muito mais potencial de aprender a construir essa narrativa do que outros países.

iCS: Como é possível, a seu ver, agregar mais atores a um debate tão importante como esse no Brasil?

AY: Uma das coisas que aprendemos em Paris é que o debate virou muito técnico, pouco acessível. Um dos aprendizados que precisamos ter, e estou falando como movimento climático, é: como traduzir a questão do clima em temas que importam para a população geral e, especialmente no caso do Brasil, para o eleitorado? Se você falar em oportunidade de mitigação no contexto urbano, já perdeu a pessoa. Agora, se falar em como pensar uma cidade mais habitável, ou como imaginar a cidade do futuro, as chances de mobilizar são maiores. Isso porque esse debate gera discussão sobre o tipo de energia que nós temos, o tipo de transporte público, e é muito mais interessante para a população.  Esse é nosso desafio: sair da discussão técnica e levar para assuntos que tocam o coração das pessoas.

Por exemplo, nós temos vários projetos na China. Nunca chegamos para falar com o governo sobre clima. Falamos sobre qualidade do ar. Como a estabilidade política depende do povo chinês sentir que vive em cidades saudáveis, a questão da qualidade do ar virou um tema que perpassa muitos outros, desde consumo até matriz energética. E tudo sem falar de clima uma única vez. É preciso achar um tema de interesse para as cidades do Brasil. Trazer a questão cultural e de identidade é muito mais poderoso.

iCS: Entre os dias 19 e 22 de junho, aconteceu no Rio de Janeiro, o encontro “ Brazil Deep Dive”, que reuniu quinze organizações filantrópicas do Brasil, Estados Unidos e Europa para debater os rumos da mudança do clima e do financiamento para o tema. Este encontro foi organizado pela ClimateWorks Foundation, com grande colaboração de iCS e de outras instituições. Você pode, por favor, descrever como foi a sua experiência, e qual foi a importância desse encontro?

AY: Eu gostei muito, e até falei no encerramento de uma das sessões que fiquei profundamente agradecida pelas pessoas terem investido um tempo para compartilhar ideias, sentar, escutar. Saí simultaneamente otimista e pessimista no curto prazo. Tive a sensação de que há um grupo de pessoas pensando em qual Brasil do amanhã nós queremos, e compartilhamos essa visão.

O iCS trouxe parceiros muito relevantes para o debate, e junto à mesa especialistas em uso da terra, energia, agenda urbana, entre outros. Isso é muito importante, principalmente no Brasil, em que as atividades urbanas têm impacto no uso da terra por conta do etanol, o modelo de sistema de geração de eletricidade tem o mesmo impacto em função das hidrelétricas e assim por diante.

O que não conseguimos fazer foram as conversas de trade off. Se queremos uma matriz energética mais limpa, talvez precisemos ter um certo número de hidrelétricas. Mas parte do movimento ambiental não deseja isso. Há um posicionamento de antagonismo que precisamos ultrapassar com uma conversa baseada em dados. Tenho a sensação de que as coisas estão muito polarizadas e o iCS tem um papel fundamental de intermediador, trazer as partes para a mesma mesa.

Temos muito dever de casa, mas há esperança.

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