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26 de setembro de 2017

Entrevista: Délcio Rodrigues, do GSCC


Délcio Rodrigues, líder do GSCC (Global Strategic Communication Council) no Brasil, conversou com o iCS sobre a importância da comunicação para a causa climática. No papo, além de traçar um perfil da mídia nacional em pleno 2017, ressalta a importância dos projetos de ONGs, Think Tanks e grupos acadêmicos terem um componente bem estruturado de divulgação em seus escopos – para que, assim, seus resultados cheguem aos destinatários corretos, com mensagens efetivas.

Confira a entrevista completa abaixo, na qual Délcio explica também a importância do financiamento de veículos de imprensa alternativos e os próximos passos do GSCC no país.

delcio rodrigues

iCS: Délcio, você pode explicar o papel do GSCC no mundo, considerando sua estratégia particular de conectar atores para expandir a comunicação sobre clima?

Délcio Rodrigues: O GSCC nasceu, e internacionalmente permanece, como uma rede de comunicação em diversos países, espalhada na maior parte da Europa, Índia, China, Brasil e Estados Unidos. Por definição, o GSCC não é uma agência de comunicação, não é uma agência de informação, não é também uma ONG, que deseja preservar sua marca, fazer sua marca valer. Ela nasceu para ser um serviço de comunicação para a causa climática. Quem são os clientes? Toda e qualquer pessoa que tenha contribuições importantes para as negociações climáticas internacionais. Quem são os destinatários? A imprensa.

O GSCC nasceu para lidar principalmente com a imprensa tradicional, jornais escritos, mas evoluiu bastante para trabalhar com a imprensa alternativa. O que fazemos é um serviço de comunicação no qual tentamos ligar os pontos, ligar fontes – ou seja, quem tem o que dizer a quem precisa ouvir, a imprensa. Em todos os países, procuramos nos relacionar bem com grupos de fontes, think tanks, grupos de universidades, ONGs, secretários de meio ambiente, membros da indústria, associações empresariais, setores amigos do clima. Estabelecemos essa rede por um lado, e a rede de jornalistas pelo outro.

iCS: Há diferenças entre essa atuação internacional e a atuação no Brasil?

DR: Aqui no Brasil estamos mudando um pouco, não abandonando essa estratégia, de maneira nenhuma, mas acrescentando outras. Há um ano e pouco, dois anos, fizemos uma pesquisa/entrevista em profundidade com mais de trinta pessoas a partir da qual queríamos entender quais eram os gaps, os vazios da comunicação em mudanças climáticas. Identificamos algumas questões, entre elas algumas que não poderíamos tratar de maneira nenhuma por estarem muito além das nossas possibilidades, e algumas que a gente poderia.

Então estamos aumentando nosso portfólio de serviços para além da ligação de fontes e imprensa, assumindo uma face mais pública, que será composta por exemplo por um website sem matérias novas, mas com a reunião de quase tudo o que se fala sobre mudanças climáticas na imprensa nacional e internacional. Uma das demandas que a gente percebeu é que as pessoas não achavam um lugar onde houvesse uma variedade grande de informações relativas às mudanças climáticas.

Além do processo de construção desse website, em fase de finalização e que será lançado antes da COP23, estamos fazendo uma newsletter diária enviada para 4 mil pessoas aproximadamente, todos stakeholders do setor – a Climainfo. Selecionamos 12 tópicos principais sobre o tema abordados pela mídia, um resumo e link para as matérias originais.

E estamos armando um projeto para construir um website informativo, com materiais originais, semelhante ao Nexo, porém com foco em mudanças climáticas. Todas as matérias que estiverem lá vão contribuir para criar uma narrativa sobre o tema.

iCS: Vimos, nos últimos anos, o enxugamento de redações no Brasil, inclusive dos maiores jornais. Como você enxerga a comunicação climática no país hoje, e sua comparação com o mundo?

DR: Os cenários são muito diferentes em vários lugares do mundo. Particularmente no Brasil tem algumas questões fundamentais. Além da crise nacional, temos uma crise financeira enorme e até de vocação, de certa maneira, na mídia como um todo. Você observa os grandes jornais que tentavam ser nacionais, como O Globo, Estadão, Folha, Valor: esses jornais também estão declinando, assim como declinaram todos os outros. Não há uma imprensa hoje no Brasil com alcance nacional. As redações estão super enxutas, os jornalistas estão afogados de trabalho, então é muito difícil hoje termos boas pautas de clima – à exceção de três ou quatro jornalistas que realmente se preocupam com esse assunto e, por terem uma certa importância na estrutura do jornal, conseguem emplacar alguma coisa sobre o tema.

O resultado disso é que não temos na mídia brasileira um real debate sobre a questão climática. O tema aparece ou nos momentos de foco, como nas COPs, ou em momentos como os atuais, em que alguém começa a falar sobre essa temporada louca de furacões e se pergunta sobre a relação disso com as mudanças climáticas. Mas é apenas isso. Então é muito difícil, hoje, através da mídia tradicional, conseguir levar uma real discussão sobre a questão climática.

iCS: Os canais alternativos podem ser um caminho?

DR: Há vários canais alternativos, alguns até de advocacy, outros que tentam ser uma mídia alternativa aos jornais maiores e tradicionais, casos do Observatório do Clima, uma ou outra matéria da Pública, o Climainfo que está nascendo…

A situação do Brasil é difícil, embora eu sempre diga que a gente fala, sim, de clima. Porque a mídia sempre dá destaque, por exemplo, à relação do Temer com a bancada ruralista para se manter no poder. Nós estamos falando de clima, uma política que está sendo definida para desmatamento na Amazônia, por meio de negociatas. Falamos disso todo dia, só não usamos a expressão mudanças climáticas. Em vários outros setores acontece o mesmo. Ou seja, temos uma pauta no dia a dia relacionada às mudanças climáticas, mas ninguém faz os links necessários para que a população entenda que as discussões sobre agricultura, esportes, etc. têm relação com elas.

No mundo anglofônico, as discussões climáticas são muito mais presentes, com anúncios de página inteira de jornal de um lado da questão, anúncio em seguida do outro, enfim, está em outro grau de elaboração. Aqui estamos aquém e precisamos ter esse grande trabalho para fazer as conexões necessárias.

iCS: Em entrevista recente para o nosso site, AnaYang, presidente do Conselho do iCS e Acting Director de Mudanças Climáticas da CIFF, disse que talvez o caminho da comunicação climática seja se distanciar da palavra clima, para conseguir alcançar mais pessoas. Como você enxerga essa possibilidade?

DR: Eu acho isso bom. Quando começamos um artigo falando “porque as mudanças climáticas…”, ninguém lê mais. Nem eu, que trabalho com isso! Agora, se você começa com uma história real e consegue fazer as conexões, por exemplo, comentar sobre como o desenvolvimento do agronegócio que está sendo feito hoje é um tiro no pé para a sustentabilidade futura do próprio agronegócio, pode funcionar.

É muito importante falar para as pessoas que não dá pra medir a comunicação em mudanças climáticas usando a palavra-chave mudança climática. Se você faz isso, está captando muito menos do que a realidade do que se fala sobre mudanças climáticas. Acho que precisamos entender isso também. Nosso trabalho não é enfiar a palavra mudança climática em todo lugar. Nosso trabalho é criar uma narrativa pró redução de emissão nas decisões cotidianas da política e nas estratégias das políticas nacionais. A questão é que as pessoas entendam os impactos reais que essas coisas já têm e terão cada vez mais e o que deverão mudar no dia a dia de tomada de decisão.

iCS: Chegamos à pergunta que você deve sempre ouvir, mas que torna-se cada vez mais atual e importante – como a comunicação pode, de fato, influenciar o desenvolvimento de uma atitude pró redução de emissões?

DR: A primeira coisa é que precisamos ter volume. Quantidade de materiais, pesquisa, matérias. Imagina o que é você competir com 1 milhão de dólares por ano produzindo comunicação com alguém que tem uma verba de comunicação como a Petrobras? A ordem de grandeza é diferente. É bem complicado. Não conseguimos mudar um quadro de percepção sobre a questão de desmatamento na Amazônia sem um trabalho volumoso de pesquisa, de produção de materiais e de articulação. Uma vez ou outra conseguimos que o Fernando Meirelles faça a abertura das Olimpíadas falando disso. Momentos muito especiais e armados com muito pouco recurso.

Primeiro precisamos de muito mais recurso. Segundo, a comunicação é essencial hoje, sempre foi, mas com as possibilidades das redes sociais, as replicações, a coisa mudou completamente de figura. Você precisa de muito mais. Precisa de importância nas redes sociais, bloggers relevantes, coisas novas, filmagens, pesquisa, textos, sem isso não rola.

Vamos olhar para o iCS, uma instituição que financia projetos de outras organizações. É importante que o próprio iCS e também os seus donatários saibam que os produtos desenvolvidos não têm muita razão de existir caso o componente de comunicação não seja pensado desde o começo. Afinal, de que adianta ter um projeto se não comunico minhas descobertas?

A maioria dos agentes que se relacionam com o iCS e com outras organizações semelhantes não é de governo ou da iniciativa privada. Portanto, não assinam um projeto de bilhões de reais para explorar petróleo ou energia eólica e tampouco tomamos decisões finais em nível de governo para regular alguma coisa. O que sempre fazemos é tentar influenciar. Seja construindo ideias, seja formulando projetos de política pública ou mesmo combatendo algumas políticas. Ou seja, dependemos dos outros – de governo e de iniciativa privada para tomar as decisões finais.

Então se não conseguimos nos comunicar com eles, usar a linguagem deles, falar de maneira com que não apenas nos entendem, mas consideram relevante, não estamos atingindo nossos objetivos.

iCS: Aproveitando que você mencionou o iCS, como avalia o nosso papel de financiador do ponto de vista de comunicação, e quais caminhos acha que uma organização de filantropia pode trilhar para alcançar esse objetivo de transmitir de forma bem clara a mensagem, para quem interessa?  

DR: Acho que organizações como o iCS, que entendem seu papel de promover projetos em busca de uma mudança na sociedade, precisam talvez exigir dos seus financiados que pensem nesse assunto. Ao apresentar um projeto para iCS, Avina, Fundação Ford, Oak Foundation, as organizações precisam definir os seus momentos de comunicação. Sei que não é fácil, porque várias organizações da sociedade, e mesmo think tanks e universidades, às vezes têm esquemas de comunicação muito estabelecidos e fechados, como publicação de papers em revistas especializadas para pesquisadores. Mas eu penso que o iCS, por exemplo, deveria exigir que na formulação do projeto já houvesse a estratégia de comunicação definida e talvez dar um passo além: oferecer uma consultoria para os donatários nesse assunto, já que muitos não têm essa prática institucionalizada. A interação de um profissional de comunicação junto aos donatários pode ser um caminho.

iCS: Ao longo dessa conversa, você falou bastante sobre a importância da mídia alternativa. O iCS tem apoiado projetos e organizações com foco na comunicação climática. Como avalia essa iniciativa?

DR: Fundamental. Como não tem nada parecido no Brasil, sei que para o iCS se aventurar nisso é mais difícil, algo como abrir uma picada no meio de um mato fechado. É fundamental que alguém faça isso, aprenda com os problemas. Algumas organizações de comunicação que têm surgido fora da mídia tradicional entenderam que não têm condições de se financiarem apenas com assinaturas e contribuições dos leitores. É um trabalho de longo prazo e imprescindível.

O cenário é tão ruim na imprensa que é um esforço mútuo: é necessário que instituições financiadoras entendam que precisamos de uma mídia forte e contribuam para a sua existência; e a mídia que nasce desse jeito também precisa ter a consciência de que precisa achar um caminho para se tornar mais relevante. Sem esse investimento que o iCS está fazendo não vamos aprender o suficiente para chegar lá.

O iCS é financiador de uma série de iniciativas de comunicação com foco nas mudanças climáticas, como a série de reportagens sobre energia do Diálogo Chino; o Climate Journalism, concurso para estudantes universitários com foco em mobilidade urbana e clima; a investigação jornalística do Sul21 acerca do impacto socioambiental da exploração mineral no Rio Grande do Sul; e a análise da cobertura nacional sobre mudanças climáticas entre 2014 e 2016 como base de uma nova estratégia de comunicação para a COP23, desenvolvida pela ANDI.

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