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06 de fevereiro de 2018

iCS entrevista: Lucia Nader


Lucia Nader é cientista política, pesquisadora e ativista há quase duas décadas na área de direitos humanos. Foi da equipe da Conectas Direitos Humanos por 13 anos, quatro dos quais como diretora executiva. Desde 2015, desenvolve trabalhos sobre “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido” e a importância do cuidado com o aspecto humano nos direitos fundamentais, primeiro como bolsista da Open Society Foundations e atualmente como pesquisadora visitante da New York University.

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Nesse bate-papo com o iCS, Lucia, que é parte do Conselho do Clima e Sociedade, narra um pouco de sua trajetória e fala da fascinante relação entre filantropia, direitos humanos e mudança climática, reforçando a importância dos três para sociedades justas e prósperas.

Confira abaixo o papo na íntegra.

Lucia, como foi sua trajetória até chegar ao papel que exerce hoje, como pesquisadora visitante do Centro de Direitos Humanos e Justiça Global da New York University (NYU)?

Eu sou cientista política de formação e atuo na área de direitos humanos há cerca de 20 anos. Trabalhei na Conectas Direitos Humanos durante 13 anos (quatro dos quais como diretora executiva) e saí no final de 2014, quando ganhei uma bolsa da Open Society Foundations para estudar o que chamo de “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”, ou seja, como as organizações da sociedade civil se adaptam ao mundo atual. Esse trabalho teve o período de um ano e meio e hoje estou como pesquisadora visitante de direitos humanos e justiça global na NYU. Meu projeto atual tem relação com a bolsa da Open Society e foca no redescobrimento do humano nos direitos fundamentais e na democracia. Busco o entendimento de como podemos ter uma atuação mais humana em três níveis: do ponto de vista do ativismo individual, para alcançar um ativismo mais sustentável no que diz respeito à saúde mental, segurança física, emocional e digital, além do bem-estar; no âmbito das organizações, a partir do olhar de que tratam-se de organismos vivos compostos por indivíduos reais, com foco na teoria de mudança, planejamento e agilidade na forma de atuação; e no terceiro nível, como podemos ter uma relação mais humana entre as organizações/ativistas e sociedade.

Considerando a sua pesquisa atual, em parte inspirada nas conclusões do projeto “Organizações Sólidas em um Mundo Líquido”, quais os níveis de influência existentes entre uma e outra?

O projeto realizado com a bolsa da Open Society vem muito da vivência que tive na Conectas sobre como construir entidades da sociedade civil que sejam sólidas, profissionais, vibrantes e fortes, ao mesmo tempo em que consigam se adaptar a diferentes mudanças que acontecem no mundo, desde tecnologia até novo tipo de engajamento – que não ocorre necessariamente via ativismo de ONG, mas também no engajamento por meio de protestos e ações descentralizadas, sem filtro institucional. Mesmo a relação com o Estado é diferente do que era há algumas décadas.

Algumas das conclusões da minha pesquisa, e que têm relação direta com o iCS: o modelo de filantropia importa muito, e é fundamental que o financiador confie na organização na qual aporta os recursos. É também essencial que a organização tenha planejamento adequado, agilidade e atenção suficientes para “surfar as ondas que apareçam”, como me disse um dos entrevistados. Muitas vezes as entidades da sociedade civil estão muito focadas em produzir a onda, quando há diversas ocasiões em que aproveitar a oportunidade é o melhor caminho. Claro que mantendo a sua visão de longo prazo e foco em resultados, sem virar refém da opinião pública. A própria Ana Toni (diretora executiva do iCS) me falou quando a entrevistei para minha pesquisa: “ser uma organização sólida não significa ser hermética. Significa ser forte o suficiente para manter seu rumo, mas também porosa o suficiente para absorver oportunidades que apareçam”. O link com minha pesquisa atual é que entrevistei 116 pessoas nesse ano e meio de Open Society e percebi que estava olhando muito para organizações e para as mudanças do mundo, mas havia uma pecinha fundamental – as pessoas – para a qual eu não dispensava o carinho necessário.

Observando mais atentamente essa perspectiva de organizações sólidas em um mundo líquido, onde o iCS se encaixa atualmente?

O iCS é uma iniciativa muito necessária e bem-vinda no Brasil e no mundo. Nas últimas décadas houve uma série de conferências relacionadas a clima, importantíssimas. Mas agora precisamos caminhar para atingir as metas e padrões de comportamento para estados, setor privado e sociedades ali traçados e ir além. O iCS tenta justamente contribuir nisso e tem uma combinação de três fatores que considero fundamentais. Ele não é um instituto de filantropia tradicional. Faz sim grant making, promovendo e apoiando organizações da sociedade civil, academia e do governo, mas também mobiliza e tenta engajar novos atores na discussão sobre mudanças climáticas e desenvolvimento justo e próspero, além de conectar parceiros e convencer outros atores a se engajarem na filantropia. Considero esse tripé muito importante, e o iCS o realiza muito bem.

Há uma relação muito próxima entre clima e direitos humanos. Em conversa recente com o iCS, Ana Yang, presidente do conselho do Clima e Sociedade, lembrou que falar sobre clima sem citar clima talvez seja o melhor caminho, visto que se trata de modelo de desenvolvimento, de direitos fundamentais. Como enxerga essa relação?

Acho que esse é um ponto fundamental. A comunicação sobre mudança climática e a ação nessa área, todo o tema, enfim, é em geral muito técnico. O mesmo acontece na área de direitos humanos. Se ele permanecer em uma bolha técnica, não apenas não agrega novos atores, como assusta. O iCS valoriza muito o conhecimento técnico na produção de conhecimento e dados, o que é imprescindível. O segundo lado da moeda é: como a gente consegue disseminar os valores e a questão da mudança climática além da comunidade que compreende o tema técnica e profundamente? Se existe algum tema no mundo que afeta a todos é justamente a alteração no clima. Não há sequer escolha se deve ou não existir o engajamento, trata-se de um ponto transversal a qualquer outro assunto tratado em qualquer região do planeta.

Acho que o nosso desafio é produzir dados técnicos, falar de Clima com C maiúsculo, e disseminar essa informação e solução para quem não possui conhecimento teórico e técnico nessa área, grupo no qual me incluo. O sonho, como a Ana Yang mencionou, é que compreendamos que estamos falando de clima o tempo todo. Significa falar da construção de sociedades justas e prósperas. O iCS tem um papel fundamental na contribuição ao debate, apoio filantrópico e promoção de debates e conexões.

O último Censo do GIFE mostrou que, no Brasil, a maior parte dos recursos de filantropia é utilizada pelas próprias empresas doadoras, que executam seus projetos na área. Como você avalia esse modelo?

O setor de filantropia no Brasil ainda tem muito a caminhar. Por exemplo, o GIFE e outros atores vêm tentando pautar o debate sobre quais tipos de filantropia queremos ter no país. Como você bem falou, hoje grande parte dos recursos de filantropia são dados e executados pela própria empresa, seja por uma empresa que abre sua própria instituição ou aquela que atua somente na comunidade em que está. Isso é relevante, claro, porém longe de ser suficiente. É importante que a filantropia aposte em uma sociedade civil diversa e forte. Ninguém tem a receita perfeita para questões sociais, climáticas e políticas como as que lidamos. Portanto, é essencial que haja atores independentes, autônomos, com estratégias diversas para encarar os diversos desafios. E isso só acontece com uma sociedade civil independente e forte. Independente significa receber recursos da filantropia, porém com autonomia na definição de seus objetivos, em sua forma de agir e em suas estratégias. Uma pluralidade de organizações, distintas, fortes, apostando em estratégia distintas e coordenando em momentos-chave é algo fundamental para que tenhamos uma democracia forte. Isso é saudável. É saudável que haja uma coordenação entre as organizações em momentos específicos, mas também que elas tenham agendas distintas. Só com uma filantropia de qualidade e que tope investir em organizações autônomas teremos isso.

Não há democracia que se fortaleça sem sociedade civil organizada – e por ela entende-se diversos tipos de atores, desde as tradicionais ONGs até pequenos e grandes coletivos, passando por organizações de bairros, veículos de comunicação alternativa, entre outros. O iCS aposta que o fortalecimento da sociedade civil brasileira passa necessariamente por aportar recursos financeiros em organizações e gerar as conexões e debates necessários.

No final de 2017, o conselho do iCS se reuniu. O que você pode nos contar dessa reunião de dois dias do ponto de vista da perspectiva para o instituto em 2018 e da filantropia no Brasil de modo geral?

2018 será um desafio no Brasil e outros países. Esse e os próximos anos serão muito importantes para a consolidação do iCS como um novo ator de filantropia e mobilização no Brasil e para entender como trabalhar temas tão relevantes fazendo valer sua missão e áreas de atuação em um equilíbrio difícil de atingir no que diz respeito a participar da vida política do país sem a superpolitização ou a partidarização.

Será ano de eleições, e conversamos muito sobre isso na reunião do conselho: é muito provável que o tema de clima não seja prioritário na agenda dos candidatos à presidência da República. Mas o clima eleitoral é uma oportunidade para trazermos a questão com a definição ampla de que abordar o tema é um dos lados da moeda de uma sociedade justa e próspera. Esse é um ano de desafios para a filantropia de uma forma geral, em que a sociedade civil terá de apagar muitos incêndios e ainda assim continuar com seus objetivos. E a mudança climática e sua relação com justiça social e democracia deve estar, cada vez mais, entre esses objetivos que buscamos alcançar.

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