O Brasil está no centro do desafio e da oportunidade climática global. O país está entre os cinco maiores emissores do mundo quando se inclui a mudança no uso da terra, mas ao mesmo tempo detém um potencial excepcional para liderar soluções climáticas – com um potencial de mitigação de emissões estimado de 500–800 MtCO2e por ano em soluções baseadas na natureza, a maior participação de energias renováveis no G20 (84% da energia em 2024) e reservas estratégicas de níquel, grafite, lítio e nióbio que ancoram as cadeias de suprimentos de tecnologia limpa. O país também enfrenta riscos climáticos agudos que exigem adaptação urgente, com recentes inundações, incêndios e secas que interrompem os meios de subsistência, sobrecarregam a matriz hidrelétrica e afetam desproporcionalmente as comunidades rurais, de baixa renda e indígenas. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) atualizada do Brasil e seu Plano Nacional de Adaptação estabelecem uma direção clara para a redução de emissões e o fortalecimento da resiliência, mas a implementação dependerá do fortalecimento das condições habilitadoras: capacidade institucional, pesquisa e marcos de políticas que destravem maiores investimentos públicos e privados.
Esta nota apresenta as principais descobertas da primeira análise abrangente sobre o financiamento climático baseado em doações (não reembolsável) para o Brasil até o final de 2023, integrando filantropia e AOD baseada em doações, com foco em desembolsos efetivos e não em compromissos anunciados. O estudo quantifica, pela primeira vez, como os recursos fluem para cada bioma brasileiro (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal, Pampa) além dos sistemas costeiros e marinhos, revelando onde o financiamento está concentrado e onde persistem lacunas significativas. Também oferece o retrato mais detalhado até o momento dos setores e subsetores que recebem apoio, abrangendo desde uso da terra e florestas até agricultura, energia, transporte, indústria, cidades, adaptação e resiliência, governança e arcabouço legal, pesquisa e dados, e engajamento público, além de apontar quais áreas permanecem despriorizadas pelas atuais doações. Ao final, também compartilhamos um conjunto de recomendações para que as filantropias climáticas atuem de forma mais estratégica no Brasil.